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Diário de Bordo · higienopolis

Setenta e sete anos de Higienópolis em vinte endereços

De 1948 a 2025, o acervo guarda vinte prédios de um mesmo bairro. Lidos em ordem, eles contam como São Paulo mudou de ideia sobre o que é morar bem.

Por Rita Figueiredo4 min de leitura

O prédio que chegou cedo demais

Comece pelo mais antigo, porque ele já responde à pergunta.

Em 1944 a Prudência e Capitalização encomendou a Rino Levi, com Roberto Cerqueira César e Luís Roberto Carvalho Franco, um edifício de apartamentos para um terreno de quase quatro mil metros quadrados na Avenida Higienópolis. A obra ficou pronta em 1948. Trouxe ar-condicionado quente e frio controlado compartimento a compartimento, água quente central, gerador próprio e um playground no térreo, itens que a cidade não conhecia em edifício residencial.

Mas o que interessa no Prudência não é o equipamento. É a planta livre: dentro do apartamento, só banheiros, cozinha e as colunas de circulação tinham lugar fixo, e todo o resto era definido por divisórias móveis que o morador podia remanejar.

A ideia era radical demais. Segundo depoimentos dos próprios arquitetos, todos os compradores recusaram as divisórias móveis, com uma única exceção; os demais ergueram alvenaria sobre os eixos da modulação. Setenta e sete anos depois, a planta personalizável voltaria ao bairro como argumento de venda, no último prédio desta lista.

O intervalo em que ninguém assinou

Depois do Prudência vem o Soberano, de 1954, e o Carinás, de 1961. Em 1962, o Helenita, de Jorge Zalszupin com Henrique Alexander: uma caixa de vidro de fachada azul-marinho, com dezesseis famílias e um único apartamento por laje, e o acesso feito por uma marquise suspensa sobre um espelho d’água. É a única obra residencial de Zalszupin em Higienópolis registrada nos arquivos de arquitetura da cidade.

E aí acontece uma coisa que só se vê quando os vinte estão lado a lado.

Entre 1974 e 2002, nenhum dos onze prédios do acervo neste bairro tem autoria documentada. Barão de Pirapitingui e Palma di Montechiaro em 1974, Torre d’Oro em 1987, Castello del Sole e Mangabeiras em 1991, Coral Bay em 1995, Monte D’oro em 1996, King David e Paradiso Higienópolis em 1998, The Gables em 1999, Sharon Tower em 2002. Vinte e oito anos, onze endereços, e o campo do arquiteto em branco em todos.

Isso não é lacuna do acervo. É o retrato de um período em que o prédio residencial paulistano era produto de incorporadora, não obra assinada. O nome que vendia era o do empreendimento, e o autor do projeto não entrava no anúncio porque não era argumento. Quando a ficha não atribui autoria, ela está dizendo que não encontrou fonte, e a ausência repetida onze vezes seguidas, no mesmo bairro e no mesmo intervalo, é ela própria um dado.

A assinatura volta, e volta como venda

O Castagneto, de 2004, ainda é anônimo. Mas em 2008 o Île de Soleil traz Patricia Anastassiadis, e daí em diante todos têm nome: Castelbianco com Felippe Crescenti em 2019, The Class Higienópolis com JNA Arquitetos em 2023, e o Casa Higienópolis com Itamar Berezin em 2025, da Think, com interiores de Chris Silveira e paisagismo de Benedito Abbud.

A diferença entre 1962 e 2025 não é que um tenha arquiteto e o outro não. É para que serve dizer o nome dele. Em Zalszupin, a assinatura era um fato de arquivo, recuperado depois. No Casa Higienópolis, ela está no material de lançamento.

O que o bairro não deixou de ser

Vale reparar no que não mudou em setenta e sete anos.

O Prudência ocupa quase quatro mil metros quadrados de terreno na Avenida Higienópolis. O Casa Higienópolis se apresenta como um farol contemporâneo erguido sobre o casario histórico, com vista para as áreas verdes do Pacaembu. Os dois vendem a mesma coisa: estar acima do bairro sem sair dele. É o argumento que Higienópolis oferece desde que existe, e é por isso que o arco é tão longo aqui e não em Moema ou no Itaim Bibi, onde o acervo começa nos anos 1990.

E há um detalhe do Prudência que fecha bem. Parte do paisagismo original de Burle Marx foi sacrificada numa reforma posterior do térreo, para abrir mais garagens. Os azulejos que ele pintou no hall permanecem.

Setenta e sete anos depois, o bairro continua fazendo essa conta.